quinta-feira, 18 de outubro de 2012

zoações


Mal pisei aqui na terra morena (aliás, cara pálida, o barro é marrom ou vermelho?) e um cara quando soube que sou do Rio falou: “Você é do Rio? Dizem que carioca é traficante ou viado... Você não é traficante né?” Se eu não tivesse perdido contato, viraria meu melhor amigo por essa...
Corta pra semana passada, meu filho ta zangado porque alguém na escola o chamou de bolinha. Eu ri, lembrando de um dos meus personagens de gibis favoritos, mas daí ele fechou mais a cara e falou: “Você ta rindo?!? Você acha engraçado?” Conversando, falei que até hoje muita gente me chama de várias coisas, atualmente careca, antigamente baixinho, narigudo, quatro olhos e branquelo (errata: onde se lê branquelo, leia-se Euro-descendente) e que o negócio é não ligar, a menos claro, que haja violência física pois aí a coisa muda de figura. Eu não sei dizer se ele ficaria preocupado se essa questão do Bullying não fosse tão enfatizada, nem sou a favor dessas piadinhas infames, mas ainda bato na tecla de que tudo é a maneira como você encara as coisas, não me lembro de amigos que tenham ficado traumatizados ou tenham virado psicopatas por causa de um apelido. Enfim, hoje peço desculpas públicas ao meu filho por ter rido, foi mal filhão. Mas quem me conhece bem sabe que inclusive meu apelido é Pietrix não por acaso devido a uma caricatura genial do meu amigo Vander onde ele desenhou meu rosto no corpo do Asterix, enfatizando que sou sim baixinho e narigudo como o herói Gaulês. E agora também na versão careca e um pouco barrigudo.

Auto ajuda


Há alguns anos, após um pé na bunda violento que quase me jogou de uma mureta da  Baia de Guanabara, entrei numa depressão que não era a mesma que acometeu Virginia Woolf, mas que foi suficiente pra me derrubar como poucas vezes aconteceu. Em seguida Carl Solomon baixou em mim e resolvi que queria me internar, levar eletrochoques, qualquer coisa que, antecedendo Brilho eterno de uma mente sem lembranças, apagasse aquilo da minha cabeça. Liguei para o Instituto Philippe Pinel e perguntei para a atendente como fazia pra internar alguém e ela respondeu que bastava levar o paciente. Como o paciente era eu, em alguns minutos já estava lá dentro tentando convencer a psicóloga, a assistente social e dois seguranças de que eu era um elemento perigoso pra sociedade. Bobagem, como em toda instituição, a burocracia impera e eu não poderia me internar lá, pois morava em outra região (se eu tivesse surtado, babando e gritando que os militares é que estavam certos, que volte a ditadura, duvido que não me internassem), porém poderiam me indicar outro hospital. Chegando no outro hospital, sou atendido por uma psicóloga (ou psicanalista, não lembro) que me recebe calorosamente dentro de uma sala cheia de incensos, puffs, só faltou o Shankar pro cenário ficar completo. Ela diz que só faz terapia em grupo, que seria até melhor pra eu me liberar melhor, mas como nunca fui adepto de panelinhas nem de surubas resolvo não aceitar e vou pra casa ainda zonzo com tanto incenso, mas pensativo sobre o que deveria fazer. Não hesitei, passei numa biblioteca, peguei o Chega de saudades do Ruy Castro e mais o Trópico de Câncer do Miller e decidi que dali em diante não teria mais depressão. Isso aconteceu em 2001, conheci muita gente depois que faz análise, que toma remédios, que vive deprê e eu no fundo acredito que basta a pessoa levantar pra mudar a situação, é muito fácil um médico te passar um remédio controlado e disfarçar seu real problema. É igual cachaça, depois do porre te dá ressaca  e você percebe que o mundo não mudou, que a novela é a mesma, que os Stones ainda estão tocando, que o Ridley Scott ainda não parou de fazer versões de diretor para Blade Runner e que o escritor mais lido ainda é o Paulo Coelho. Auto análise na veia, você se descobre mais, economiza uma grana e ainda tem tempo de ouvir um disco. Só não pode ser dessas bobagens universitárias, senão a depressão volta e não há Tarja preta que resolva.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sonhos não envelhecem


Segunda Feira, fim de tarde, eu com um copo de guaraná na mão, um amigo com um copo de tequila, cigarro entre os dedos, chapéu Panamá. De repente ele brada: “Vou pra uma ilha, ninguém vai me achar mais, aqui não tem nada, deixo tudo pra você. Acabaram-se as amizades, você é um dos poucos que tenho, o sonho acabou...” Daí em seguida tomou outro gole e chorando disse: “Pra mim, um dos momentos mais tristes da biografia do Paul McCartney foi quando o Lennon bateu na porta do Paul e ele não abriu. Ali ele viu que a amizade havia acabado...”.
Fui pra casa com um grilo na cuca, pensando nos amigos que ficaram pra trás e nos que me ignoraram. Tive um amigo que conheci quando este era adolescente, aspirante a poeta, achava seu conhecimento cinematográfico impressionante, sabia de música como poucos. Apoiei o que pude, divulguei pra vários amigos suas idéias, apresentei pessoas que julguei serem importantes para seu futuro promissor. Um dia mandei Email não respondeu. Tentei mais algumas vezes e nada. Reli as últimas mensagens que trocamos e nada demonstrava que um dia ele me presentearia com seu desprezo. Soube por amigos que lançou alguns livros e volta e meia está em evidência. Parabéns pra ele, a poesia fica e amizade acaba, talvez a única sinceridade esteja no silêncio.
Muitos amigos sonho em rever, amizade sempre foi sagrada pra mim, ainda que nem sempre eu esteja com tempo de visitá-los. Já briguei muito pelos meus amigos, alguns mereceram e outros não. Mas mesmo para os que não mereceram deixo os braços abertos.
E pra esse amigo que quer ir pra uma ilha, deixo o recado que se algum dia bater na minha porta, não deixarei de abri-la, o sonho não acaba tão fácil pra mim.