Há alguns anos, após um pé na bunda violento que quase me
jogou de uma mureta da Baia de Guanabara,
entrei numa depressão que não era a mesma que acometeu Virginia Woolf, mas que
foi suficiente pra me derrubar como poucas vezes aconteceu. Em seguida Carl Solomon
baixou em mim e resolvi que queria me internar, levar eletrochoques, qualquer
coisa que, antecedendo Brilho eterno de uma mente sem lembranças, apagasse
aquilo da minha cabeça. Liguei para o Instituto Philippe Pinel e perguntei para
a atendente como fazia pra internar alguém e ela respondeu que bastava levar o
paciente. Como o paciente era eu, em alguns minutos já estava lá dentro
tentando convencer a psicóloga, a assistente social e dois seguranças de que eu
era um elemento perigoso pra sociedade. Bobagem, como em toda instituição, a
burocracia impera e eu não poderia me internar lá, pois morava em outra região (se
eu tivesse surtado, babando e gritando que os militares é que estavam certos,
que volte a ditadura, duvido que não me internassem), porém poderiam me indicar
outro hospital. Chegando no outro hospital, sou atendido por uma psicóloga (ou
psicanalista, não lembro) que me recebe calorosamente dentro de uma sala cheia
de incensos, puffs, só faltou o Shankar pro cenário ficar completo. Ela diz que
só faz terapia em grupo, que seria até melhor pra eu me liberar melhor, mas
como nunca fui adepto de panelinhas nem de surubas resolvo não aceitar e vou
pra casa ainda zonzo com tanto incenso, mas pensativo sobre o que deveria
fazer. Não hesitei, passei numa biblioteca, peguei o Chega de saudades do Ruy
Castro e mais o Trópico de Câncer do Miller e decidi que dali em diante não
teria mais depressão. Isso aconteceu em 2001, conheci muita gente depois que
faz análise, que toma remédios, que vive deprê e eu no fundo acredito que basta
a pessoa levantar pra mudar a situação, é muito fácil um médico te passar um
remédio controlado e disfarçar seu real problema. É igual cachaça, depois do
porre te dá ressaca e você percebe que o
mundo não mudou, que a novela é a mesma, que os Stones ainda estão tocando, que
o Ridley Scott ainda não parou de fazer versões de diretor para Blade Runner e
que o escritor mais lido ainda é o Paulo Coelho. Auto análise na veia, você se
descobre mais, economiza uma grana e ainda tem tempo de ouvir um disco. Só não pode ser dessas bobagens universitárias, senão a depressão volta e não há Tarja preta que resolva.
Ri horrores com esse texto, Pietrão! Porr*, Brilho Eterno?!? Então, poucas pessoas, no entanto, conseguem fazer o que você fez nesse caso, de poder sair do lodo sozinho. Ou de poder administrar a intensa alegria sozinho. Ou de poder se bastar sozinho! Como bom leonino que sou, existem muitas coisas que ainda não consigo fazer sozinho, principalmente no que se relaciona aos relacionamentos relacionados com outras pessoas! Gostaria de saber mais sobre sua opinião de terapia, psiquiatria e remédios. Bora tomar um café e conversar sobre titio Freud?
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