quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Auto ajuda


Há alguns anos, após um pé na bunda violento que quase me jogou de uma mureta da  Baia de Guanabara, entrei numa depressão que não era a mesma que acometeu Virginia Woolf, mas que foi suficiente pra me derrubar como poucas vezes aconteceu. Em seguida Carl Solomon baixou em mim e resolvi que queria me internar, levar eletrochoques, qualquer coisa que, antecedendo Brilho eterno de uma mente sem lembranças, apagasse aquilo da minha cabeça. Liguei para o Instituto Philippe Pinel e perguntei para a atendente como fazia pra internar alguém e ela respondeu que bastava levar o paciente. Como o paciente era eu, em alguns minutos já estava lá dentro tentando convencer a psicóloga, a assistente social e dois seguranças de que eu era um elemento perigoso pra sociedade. Bobagem, como em toda instituição, a burocracia impera e eu não poderia me internar lá, pois morava em outra região (se eu tivesse surtado, babando e gritando que os militares é que estavam certos, que volte a ditadura, duvido que não me internassem), porém poderiam me indicar outro hospital. Chegando no outro hospital, sou atendido por uma psicóloga (ou psicanalista, não lembro) que me recebe calorosamente dentro de uma sala cheia de incensos, puffs, só faltou o Shankar pro cenário ficar completo. Ela diz que só faz terapia em grupo, que seria até melhor pra eu me liberar melhor, mas como nunca fui adepto de panelinhas nem de surubas resolvo não aceitar e vou pra casa ainda zonzo com tanto incenso, mas pensativo sobre o que deveria fazer. Não hesitei, passei numa biblioteca, peguei o Chega de saudades do Ruy Castro e mais o Trópico de Câncer do Miller e decidi que dali em diante não teria mais depressão. Isso aconteceu em 2001, conheci muita gente depois que faz análise, que toma remédios, que vive deprê e eu no fundo acredito que basta a pessoa levantar pra mudar a situação, é muito fácil um médico te passar um remédio controlado e disfarçar seu real problema. É igual cachaça, depois do porre te dá ressaca  e você percebe que o mundo não mudou, que a novela é a mesma, que os Stones ainda estão tocando, que o Ridley Scott ainda não parou de fazer versões de diretor para Blade Runner e que o escritor mais lido ainda é o Paulo Coelho. Auto análise na veia, você se descobre mais, economiza uma grana e ainda tem tempo de ouvir um disco. Só não pode ser dessas bobagens universitárias, senão a depressão volta e não há Tarja preta que resolva.

Um comentário:

  1. João Luiz L. Cardoso23 de outubro de 2012 às 05:46

    Ri horrores com esse texto, Pietrão! Porr*, Brilho Eterno?!? Então, poucas pessoas, no entanto, conseguem fazer o que você fez nesse caso, de poder sair do lodo sozinho. Ou de poder administrar a intensa alegria sozinho. Ou de poder se bastar sozinho! Como bom leonino que sou, existem muitas coisas que ainda não consigo fazer sozinho, principalmente no que se relaciona aos relacionamentos relacionados com outras pessoas! Gostaria de saber mais sobre sua opinião de terapia, psiquiatria e remédios. Bora tomar um café e conversar sobre titio Freud?

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